Crítica:
Por Josafá Crisóstomo
Esse é o quarto longa-metragem da carreira de George Clooney como diretor. Clooney ainda escreveu o roteiro dessa produção, em parceria com Grant Heslov, e que se baseia na peçaFarragut North, de Beau Willimon, um jovem ator que também chegou a trabalhar em uma campanha do candidato democrata Howard Dean, em 2004. Aliás, a peça teria sido inspirada nesse episódio da vida de seu autor.
O carismático e bem-sucedido astro de Hollywood, além de dirigir Tudo pelo Poder (The Ides of March), também atua no filme no papel de um governador, Mike Morris, candidato às primárias do Partido Democrata e que pretende derrotar seu adversário do mesmo partido. O problema é que esse último tem se revelado mais bem-sucedido quando a etapa da disputa chega a Ohio, um dos estados em que Morris ainda não conta com apoio político local para alcançar o almejado sonho de habitar a Casa Branca. Obter tal vitória é para onde converge todo o esforço da atuação de Stephen Meyers (Ryan Gosling, de Amor a toda prova e Drive), assessor de campanha do governador. Por conta disso, ele é o verdadeiro protagonista da história e não o personagem de Clooney.
Toda a película ressalta a atuação desse jovem nos bastidores da campanha e segue um lugar comum quando se trata de fazer filmes políticos em Hollywood, ainda mais quando o viés pretende ser o da crítica de um status quo moralmente corrupto: o jovem idealista apoia determinado líder político; tal jovem é bastante competente e age com absoluta correção (ao menos do ponto de vista do que se espera de alguém idealista); ele descobre uma mácula na atuação do tal político, seu ídolo; procura fazer de tudo para encobrir essa mácula; por um outro motivo, é incompreendido pelo amigo coordenador da campanha, Paul Zara (Philip Seymour Hoffman) e pelo governador-candidato, quando, então, é afastado compulsoriamente da campanha.
A ruptura com esse esquema, e que também acontece na proposta desse diretor, dá-se quando o protagonista não aceita tal desfecho deprimente e opta por se corromper tanto quanto aquele que o decepcionou. O que se observa, então, é que a sede de poder e de vingança ganham mais uma vez. O pivô para uma certa reviravolta que se dá no contexto das relações entre Meyers e o candidato, é o que acontecera, por sua vez, entre o governador e Molly Stearns (Evan Rachel Wood), uma estagiária da campanha: qualquer semelhança aqui com o caso Mônica Lewinsky e Bill Clinton não será uma mera coincidência, evidentemente.
O curioso é que George Clooney como ator tem uma atuação política bastante contundente nos EUA, ele assumidamente apoiou Obama na sua campanha, e, portanto, considera-se um democrata. Com esse filme, o diretor resolveu dar munição a dois grupos bastante distintos:
- o primeiro é aquele que reúne qualquer um que apoie uma atitude política mais adequada e coerente, ou seja, que espera que o discurso, a imagem e a ação dos candidatos de quaisquer partidos, seja na esfera pública ou privada da vida desses candidatos, possam ser, evidentemente, de reputação ilibada;
- o outro grupo, e que poderá se beneficiar do modo como a crítica foi construída no filme, é o dos republicanos, os quais têm interesse em ver uma campanha democrata ser maculada, principalmente em seus bastidores, onde e quando um escândalo sexual envolvendo um candidato democrata se pretende tão possível de se repetir, ainda que isso se dê no contexto de uma ficção.
Nesse sentido, é importante fazer notar que esse é um lançamento às portas de um novo ano eleitoral, quando os republicamos voltarão com toda a força para impedir a vitória, novamente, de um democrata. Enfim, esse foi o risco que o diretor quis assumir, como é possível observar.
De qualquer modo, Tudo pelo poder tem lá sua dinâmica e contém movimento e ritmo adequados para o desenvolvimento na tela, de um thriller político. Além disso, Clooney conseguiu reunir bons atores. Marisa Tomei, por exemplo, está no elenco. No entanto, para quem admira o trabalho da atriz, não espere muito de sua atuação, pois, lamentavelmente, ela faz o papel de uma jornalista abelhuda e feiosa (Ida Horowicz), uma personagem clichê e bem desinteressante, diga-se de passagem. Já quem gosta de conferir boas atuações vai apreciar, sobretudo, a do jovem protagonista da história, interpretado por Ryan Gosling, mas também a de Paul Giamatti, interpretando Tom Duffy, o assessor do candidato rival. Há, inclusive, uma cena de embate entre os dois muitíssimo bem construída em seu clímax de tensão. |
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